VATICANO II

A VISÃO BÍBLICA

DA COMPLEMENTARIDADE HOMEM–MULHER

 

 

 

Giles Bernheim

Grão Rabino da França

 

 

No seu discurso à Cúria Romana em 21-XII-2012, Bento XVI citou o “tratado esmeradamente documentado e profundamente comovente” do Rabino-Chefe da França, enviado ao Presidente da República da França e ao seu Governo, para defender o matrimónio tradicional perante a introdução no direito do “matrimónio homossexual”.

A ed. port. de L’Osservatore Romano, de 29-XII-2012, transcreve um excerto mais teológico, que temos o gosto de oferecer aos nossos leitores.

 

 

A complementaridade homem–mulher é um princípio estruturante no judaísmo, em outras religiões, em correntes de pensamento não-religioso, na organização da sociedade, assim como na opinião duma grande maioria da população. Este princípio, para mim, encontra o seu fundamento na Bíblia. Para outros, poderá ter outro fundamento. Vou-me concentrar aqui na visão bíblica, que não exclui outras visões.

 

Uma diferença irredutível

 

“Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, Ele os criou homem e mulher» (Génesis 1, 27). O relato bíblico fundamenta a diferença sexual no acto criador. A polaridade masculino-feminino atravessa tudo o que existe, desde o barro até Deus. Faz parte do dado primordial que orienta a vocação respectiva – o ser e o agir – do homem e da mulher. A dualidade dos sexos pertence à constituição antropológica da humanidade.

Assim, cada pessoa é levada a reconhecer mais cedo ou mais tarde que ela não possui senão uma das duas variantes fundamentais da humanidade, e que a outra lhe permanece para sempre inacessível. A diferença sexual é, portanto, uma marca da nossa finitude. Eu não sou todo o ser humano. Um ser sexual não é a totalidade da sua espécie, ele necessita de um ser do outro sexo para produzir o seu semelhante.

 

Uma diferença constitutiva da transcendência

 

O Gênesis não vê a semelhança do ser humano com Deus senão na associação do homem e da mulher (Génesis 1, 27) e não em cada um deles tomados separadamente. Isto sugere que a definição do ser humano não é perceptível senão na conjunção dos dois sexos. Porque cada pessoa, devido à sua identidade sexual, é remetida para além de si mesma. A partir do momento em que ela é consciente da sua identidade sexual, cada pessoa humana vê-se confrontada com uma espécie de transcendência. Ela é forçada a pensar para além de si mesma e a reconhecer como tal outro ser inacessível, que lhe é essencialmente semelhante, desejável e nunca totalmente compreensível.

A experiência da diferença sexual torna-se assim o modelo de toda a experiência da transcendência, que significa uma relação indissolúvel com uma realidade absolutamente inacessível. Pode-se compreender a partir daí por que a Bíblia usa de bom grado a relação entre homem e mulher como metáfora da relação entre Deus e o homem: não porque Deus seja masculino e o homem feminino, mas porque a dualidade sexual do homem é o que manifesta mais claramente uma alteridade insuperável dentro da relação mais estreita.

 

Da solidão à relação

 

É impressionante que, na Bíblia, a diferença sexual seja enunciada imediatamente após a afirmação do facto de que o homem é à imagem de Deus. Isto significa que a diferença sexual se inscreve nesta imagem, e é abençoada por Deus.

Portanto, a diferença sexual deve interpretar-se como um facto da natureza, permeado de intenções espirituais. Disto é prova que, na criação em sete dias, os animais não são apresentados como sexuados. O que os caracteriza não é a diferença dos sexos, mas a diferença das ordens e, dentro de cada ordem, a diferença das espécies: há os peixes do mar, as aves do céu, os animais da terra... Todos os seres vivos são produzidos, como um refrão, “segundo a sua espécie” (Génesis 1, 21).

Neste relato, a sexualidade não é mencionada senão para o homem, pois é precisamente na relação de amor, que inclui o acto sexual pelo qual o homem e a mulher “se tornam uma só carne”, que ambos realizam a sua própria finalidade: serem à imagem de Deus.

O sexo não é, portanto, um atributo acidental da pessoa. A genitalidade é a expressão somática de uma sexualidade que afecta todo o ser da pessoa: corpo, alma e espírito. É porque o homem e a mulher se percebem diferentes em todo o seu ser sexuado, sendo ambos ao mesmo tempo pessoas, que pode haver aí complementaridade e comunhão.

“Masculino” e “feminino”, “varão” e “mulher” são termos relacionais. O masculino não é masculino senão na medida em que se orienta para o feminino e, através da mulher, para o filho – em qualquer caso, para uma paternidade, seja carnal ou espiritual. O feminino não é feminino senão na medida em que se orienta para o masculino e, através do homem, para o filho – em qualquer caso, para uma maternidade, seja carnal ou espiritual.

 

O segundo relato da criação aprofunda este ensinamento apresentando o acto de criação da mulher sob a forma de uma operação cirúrgica pela qual Deus extrai do mais íntimo de Adão, aquela que se tornará sua companheira (Génesis 2, 22). A partir desse momento, nem o homem nem a mulher será todo o ser humano, e nenhum dos dois conhecerá todo o ser humano.

Exprime-se uma dupla finitude:

• Eu não sou tudo, eu nem sequer sou todo o ser humano.

• Eu não sei tudo sobre o ser humano: o outro sexo permanece para mim parcialmente incognoscível.

Isto leva à impossível auto-suficiência do homem. Este limite não é uma privação, mas um dom que permite a descoberta do amor que nasce de maravilhar-se perante a diferença.

O desejo faz descobrir ao homem a alteridade sexuada no seio da própria natureza: “Desta vez, esta é o osso dos meus ossos e a carne da minha carne!” (Génesis 2, 23), e a abertura a este outro permite-lhe que se descubra na sua diferença complementar: “ela chamar-se-á Isha porque ela é tirada de Ish” (ibid.).

 

“O homem deixará o seu pai e a sua mãe e unir-se-á à sua mulher, e ambos serão um só – uma só carne” (Génesis 2, 24). Em hebraico, “uma só carne” remete ao Único, Ehad – o Nome divino por excelência, segundo a oração do Shemá Israel: “Ouve, ó Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é o Único – Adonai Ehad” (Deuteronómio 6, 4).

É na sua união, ao mesmo tempo carnal e espiritual, tornada possível pela sua diferença e pela sua orientação sexual, que o homem e a mulher reproduzem, na ordem criada, a imagem do Deus Único.

 

Em contraste, o terceiro capítulo do Génesis apresenta o pecado como recusa do limite e, por conseguinte, da diferença: “Deus sabe que, no dia em que comerdes desse fruto, os vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal” (Génesis 3, 5).

“A árvore do conhecimento do bem e do mal” – “a árvore do bem conhecer e do mal conhecer” – simboliza precisamente os dois modos de apreender o limite:

• o “bem conhecer” respeita a alteridade, aceita não saber tudo, e consente não ser tudo; este modo de conhecer abre-se ao amor e, assim, à “árvore da vida”, plantada por Deus no centro do jardim (Génesis 2, 9);

• o “mal conhecer” recusa o limite, a diferença; absorve o outro na esperança de reconstituir em si o todo e adquirir a omnisciência. Esta recusa da relação de alteridade leva à inveja, à violência, e finalmente à morte.

Não é isto o que propõe o gender: a recusa da alteridade, da diferença, e a reivindicação de adoptar todos os comportamentos sexuais, independentemente da sexualidade, o primeiro dom da natureza? Por outras palavras, a pretensão de “conhecer” a mulher como o homem, de se libertar de todos os condicionamentos naturais, e assim “ser como deuses”?

 

 

 

 


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