Anunciação do Senhor

8 de Abril de 2013

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Alegrai-vos, ó Virgem Maria, M. Luís, NCT 647

Hebr 10, 5.7

Antífona de entrada: Ao entrar no mundo, o Senhor disse: Eu venho, meu Deus, para fazer a vossa vontade.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A Igreja celebra nove meses antes do dia de Natal a solenidade da Anunciação do Senhor. Deus por meio do Anjo Gabriel revela a Maria o mistério da Encarnação e pede o seu livre consentimento. Nossa Senhora responde com plena disponibilidade e o Verbo de Deus se fez homem. Vivamos a Missa de hoje com muitos actos de agradecimento ao Senhor que continua na eucaristia a o mistério da sua encarnação redentora e recordemos que também nos, como Maria, estamos chamados a colaborar na obra da salvação das almas.

 

Acto penitencial

 

Oração colecta: Deus, Pai santo, que na vossa benigna providência quisestes que o vosso Verbo assumisse verdadeira carne humana no seio da Virgem Maria, concedei-nos que, celebrando o nosso Redentor como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, mereçamos também participar da sua natureza divina. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O Profeta Isaías anuncia, movido pelo Espírito Santo, um Sinal de Deus, que só virá a acontecer séculos mais tarde: o Mistério da concepção virginal de Maria. O Mistério da Encarnação é o grande sinal; é a mais plena manifestação do Amor de Deus pelos homens.

 

Isaías 7, 10-14 8, 10

Naqueles dias, 10o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: 11«Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas». 12Acaz respondeu: «Não pedirei, não porei o Senhor à prova». 13Então Isaías disse: «Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? 14Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será ‘Emanuel’, porque Deus está connosco».

 

Este célebre texto messiânico é extraído do início do «Livro do Emanuel», assim chamado pela misteriosa figura central do Immánu-El (connosco-Deus), um «menino» descrito com traços que excedem tudo o que a história da monarquia hebraica regista (Is 7, 1 – 12, 6), daí o seu carácter messiânico, em quem os cristãos vêem uma figura do Salvador.

10-13 Como prova de que o rei Acaz não virá a ser destronado e substituído pelo filho de Tabel, estranho à linhagem davídica (estamos na conjura siro-efraimita contra o rei de Judá), o profeta Isaías propõe ao rei que peça um sinal divino, o mais extraordinário que seja (cf. v. 11). O rei, com hipócrita religiosidade, nega-se a pedir esse sinal, porque não acredita em sinais, em coisas sobrenaturais. Foi por esta ocasião (o que não quer dizer exactamente o mesmo momento) em que o Profeta, dirigindo-se à linhagem (casa) de David, anunciou que o Senhor dará um sinal verdadeiramente extraordinário e que o trono de David se consolidará eternamente (cf. 2 Sam 7, 16).

14 Esse «sinal» é a virgem que concebe. Muito se tem discutido e escrito sobre este sinal. Uma coisa é certa, é que o crente não pode prescindir de algum sentido messiânico (directo ou indirecto) desta célebre passagem isaiana. De facto, a própria exegese bíblica mostra que estamos no chamado «Livro do Imanuel» (Is 7 – 12), uma secção de carácter vincadamente messiânico por apontar para um descendente de David em quem se concentram as promessas da salvação de Deus, o Imanuel (o Deus connosco); embora, em primeiro plano, possa ser visado o próprio filho do rei Acaz, Ezequias, ele é considerado uma figura ou tipo do Messias. A tradução grega dos LXX (inspirada por Deus?) utilizou um termo específico para designar a virgindade desta mãe, chamando-a parthénos, quando o termo hebraico original não designa mais que a sua idade juvenil: ‘almáh. A célebre tradução grega em que se apoiavam os primeiros apologistas cristãos para demonstrarem aos judeus que Jesus é o Messias prometido, veio a ser rejeitada pelos judeus, que a substituíram por outras versões (ou antes adaptações gregas: Áquila, Símaco e Teodocião); e o dia festivo para comemorar a tradução dos LXX passou a ser um dia de luto. A interpretação mais tradicional defende o sentido literal (não se contentando com o sentido chamado típico ou pleno, suficientes para se garantir o sentido messiânico da passagem) e faz finca-pé em que Deus tinha oferecido pelo Profeta um sinal prodigioso, e eis que o dá; ora esse sinal só é prodigioso se a concepção e o nascimento do Menino acontece sem destruir a virgindade da Mãe; aliás é ela a pôr o nome ao filho, coisa que pertence sempre ao pai (que aqui não aparece). O próprio nome do filho insinua a sua divindade, «Deus connosco»: é a mesma personagem extraordinária anunciada em Is 9, 5-6: «Deus forte, príncipe da paz...».

 

Salmo Responsorial    Sl 39 (40), 7–8a.8b–9.10.11 (R. 8a.9a)

 

Monição: O Salmo que iremos rezar é um salmo messiânico em que o autor oferece a Deus não um sacrifício de coisas materiais mas o sacrifício da própria obediência a Deus. Isto se aplica de modo eminente a Jesus Cristo, mas também deve poder dizer-se de cada um de nós.

 

Refrão:        Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.

 

Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,

mas abristes–me os ouvidos;

não pedistes holocaustos nem expiações,

então clamei: «Aqui estou».

 

De mim está escrito no livro da Lei

que faça a vossa vontade.

Assim o quero, ó meu Deus,

a vossa lei está no meu coração».

 

Proclamei a justiça na grande assembleia,

não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.

 

Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,

proclamei a vossa fidelidade e salvação.

Não ocultei a vossa bondade e fidelidade

no meio da grande assembleia.

 

Segunda Leitura

 

Monição: O autor da Carta aos Hebreus explica aos cristãos procedentes do judaísmo que o culto e os sacrifícios rituais da Antiga Lei eram preparação do único e verdadeiro Sacrifício Redentor oferecido por Jesus Cristo. Esse Sacrifício torna-se presente em cada Eucaristia.

 

Hebreus 10, 4-10

Irmãos: 4É impossível que o sangue de touros e cabritos perdoe os pecados. 5Por isso, ao entrar no mundo, Cristo disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. 6Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. 7Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, meu Deus, para fazer a tua vontade’». 8Primeiro disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado». E no entanto, eles são oferecidos segundo a Lei. 9Depois acrescenta: «Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade». Assim aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. 10É em virtude dessa vontade que nós somos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre.

 

O autor de Hebreus está no final da primeira parte da obra, precisamente quando discorre sobre a superioridade do sacrifício de Cristo relativamente a todos os sacrifícios da Lei Antiga (8, 1 – 10, 18), sob o ponto de vista da eficácia, argumentando, à boa maneira rabínica, a partir dos Salmos 40 (39), 7-9 e 110 (109), 1. Perante a ineficácia dos sacrifícios da Antiga Lei, o próprio Deus decide vir à Terra, na pessoa do Filho para poder oferecer, da parte da humanidade (Cristo é perfeito homem), um sacrifício de eficácia infinita (Cristo é perfeito Deus), oferecido de uma vez para sempre (v. 10), e assim aboliu o primeiro culto, o levítico (v. 9). Recorde-se que o Sacrifício do Calvário é único pelo seu infinito valor, o Sacrifício da Missa não é outro sacrifício diferente, mas o mesmo sacrifício que se torna presente sacramentalmente a todos os tempos nos nossos altares, aplicando-nos os méritos da Cruz.

7 «Eis-me aqui». Palavras do Salmo 40 (39) que o autor inspirado aplica a Jesus, e que a Liturgia hoje põe no coração do Filho de Deus, ao incarnar no seio da Santíssima Virgem.

 

Aclamação ao Evangelho        Jo 1, 14ab

 

Monição: Contemplemos com admiração e agradecimento a cena da Anunciação narrada por S. Lucas, e recordemos que também Deus conta connosco para colaborar na Obra da Salvação.

 

Aleluia

 

Cântico: J. Santos, NRMS 40

 

O Verbo fez–Se carne e habitou entre nós

e nós vimos a Sua glória.

 

 

Evangelho

 

Lucas 1, 26-38

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». 34Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». 35O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível». 38Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra».

 

A cena da Anunciação, narrada com toda a simplicidade, tem uma singular densidade, pois encerra o mistério mais assombroso da História da Salvação, a Incarnação do Filho eterno de Deus. Assim, a surpresa do leitor transforma-se em encanto e deslumbramento. O próprio paralelismo dos relatos lucanos do nascimento de João e de Jesus, revestem-se dum contraste deveras significativo: à majestade do Templo e grandiosidade de Jerusalém contrapõe-se a singeleza duma casa numa desconhecida e menosprezada aldeia de Galileia; ao afã dum casal estéril por ter um filho, opõe-se a pureza duma virgem que renunciara à glória de ser mãe; à dúvida de Zacarias, a fé obediente de Maria!

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus».

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo do grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêem na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria messiânica da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9).

Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria, correspondendo a: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita és tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Nova Vulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois n’Ela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1, 18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, como Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo, que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício redaccional, e também o «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos, mas renunciando a consumar a união; nem todos os estudiosos, porém, assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia da Difusora Bíblica): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem um fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Nova Vulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois aquilo que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este sintagma, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus, que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus (M. Orsatti).

Apraz-nos citar aqui as palavras de S. João Damasceno sobre Nª Senhora: «Ela é descanso para os que trabalham, consolação dos que choram, remédio para os doentes, porto de refúgio para as tempestades, perdão para os pecadores, doce alívio dos tristes, socorro dos que rezam».

 

Sugestões para a homilia

 

1. O Mistério da Encarnação

 

2. Jesus perfeito Deus e perfeito homem

 

3. Disponíveis para Deus

 

1. O Mistério da Encarnação

Como todos os cristãos somos chamados, no ano da fé, a renovar a nossa adesão pessoal a Deus e às verdades por Ele reveladas. A Igreja celebra liturgicamente essas verdades no ciclo anual. Por isso cada celebração é momento privilegiado para aprofundar doutrinalmente nos mistérios da nossa fé.

Hoje, na Solenidade da Anunciação do Senhor, celebramos o mistério da Encarnação redentora do Filho de Deus. Quando, de aqui a pouco, rezemos o credo, ajoelharemos às palavras “e encarnou…”. É essa a atitude que devemos manter sempre no nosso coração. Devemos adorar, prostrados e agradecidos, o mistério do infinito amor de Deus pelos homens.

A profecia de Isaías, proclamada na primeira leitura, faz referência a um sinal que Deus dará aos homens. O profeta abandona o contexto histórico da situação política do Israel da sua época, para transportar-se ao tempo messiânico por todos esperado. O sinal prometido só acontecerá seiscentos anos mais tarde na pequena povoação de Nazaré, na Galileia. Numa breve síntese, o Compendio do Catecismo da Igreja Católica explica assim o cumprimento desse sinal: “No tempo do rei Herodes e do imperador César Augusto, Deus cumpriu as promessas feitas a Abraão e à sua descendência enviando «o Seu Filho, nascido de uma mulher e sujeito à Lei, para resgatar os que estavam sujeitos à Lei, e nos tornar seus filhos adoptivos» (Gal 4, 4-5)” (nº85). Desde esse momento Deus está presente no Mundo de um modo novo. O Eterno penetrou no tempo criado e deu início à obra redentora. O Filho de Deus, agora também homem como nos, é o “rosto humano de Deus” e Caminho que nos facilita o aceso à intimidade do Pai. Jesus está presente no Mundo por meio da Igreja e estará connosco até ao fim dos tempos (cfr. Mt.28,20). Por isso podemos, e devemos, conversar com Ele, percorrer com Ele o caminho da vida. Junto de Jesus, na comunhão com Ele que alcançamos nos sacramentos e na oração, a nossa fé vai tornando-se mais luminosa. Podemos dizer que a fé é participação na visão que Jesus tem do Pai (cfr.Jo.6, 46). Por meio da fé podemos ver com Jesus o que Ele vê. Por Jesus ser o Filho vê continuamente o Pai. Por ser homem como nos, podemos ver o Pai com Ele. Por ser as duas coisas simultaneamente, Deus e homem, nunca será uma pessoa do passado nem uma pessoa sempre projectada para um tempo futuro, a eternidade, mas está sim sempre vivo no tempo terreno, está sempre presente (cfr. Joseph Ratzinger Evangelio, Catequesis, Catecismo, EDICEPI, pg.22). Por isso a vida Cristiana é conhecer e amar Jesus Cristo.

 

2. Jesus perfeito Deus e perfeito homem

 

Na segunda leitura da Carta aos Hebreus, o Autor sagrado coloca na boca de Nosso Senhor “ao entrar no mundo” as palavras: “formaste-Me um corpo”, ou seja uma natureza humana, que o Filho de Deus assume para sempre. Por isso Nosso Senhor Jesus Cristo é perfeito Deus e perfeito homem. O Filho de Deus eterno não deixou de ser Deus quando uniu a Si um corpo e uma alma humanos, nem foi modificada a sua Pessoa divina pelo facto de encarnar. Algo parecido acontece quando uma pessoa é filmada por uma câmara de televisão. Ela não é afectada pelo facto da sua imagem estar presente numa multidão de lugares. Quanto à natureza humana que o Filho de Deus assume, também ela não ficou alterada pela sua união com a Pessoa divina. Foi sim aperfeiçoada de modo a não contrair algumas das consequências do pecado original incompatíveis com a santidade de Deus. Assim Jesus Cristo é Deus e homem sem confusão nem separação da sua divindade e da sua humanidade unidas na Pessoa do Filho.

Nós, que pelo baptismo fomos “incorporados” a Jesus Cristo e chamados a identificar-nos com Ele, deveríamos ser, em certo modo, “divinos” e “humanos” ao mesmo tempo. Devemos ser, melhor dizendo, pessoas “sobrenaturais”, com uma fé esperança e caridade profundas, e, ao mesmo tempo, pessoas muito “humanas”, ou seja realistas, prudentes e atentos a desenvolver as qualidades humanas da nossa personalidade. Não nos chama Deus a rezar e dedicar-nos a actividades piedosas descurando, por desatenção, os deveres profissionais, familiares e sociais. Nem podemos ocupar-nos de tal modo de essas últimas realidades, que vivamos sem nos lembrarmos de Deus e tornando quase inexistente, na nossa vida, o tempo que dedicamos à oração.

Todos nossos dias precisam de momentos reservados para diversas práticas de piedade habituais que nos permitam continuar unidos a Deus durante o trabalho, as deslocações, o descanso e a vida familiar.

 

3. Disponíveis para Deus

 

Na narrativa de S. Lucas da Anunciação transparece, o modo próprio do agir de Deus. As obras divinas são realizadas na humildade, de modo quase escondido. Deus vai transformar o Mundo até as suas raízes mais fundas, e escolhe para tal uma jovem desconhecida das sociedades influentes que habita numa aldeia perdida e num meio sem poder económico nem social. Mas a Deus basta a disponibilidade da criatura – “faça-se em mim segundo a tua palavra” – e faz dela um instrumento para que a Redenção possa chegar a todos os homens de todos os tempos.

Jamais devemos pensar que a nossa vida carece de valor. Esse pensamento é desmentido pelo Evangelho, que nos faz compreender o valor de uns poucos pães e peixes, ou um pouco de lodo feito com saliva. Nas mãos de Jesus essas “coisas sem valor” adquirem propriedades sobrenaturais. As mesmas pessoas que Deus escolhe para serem os seus instrumentos; Nossa Senhora, S. José, os Apóstolos, são pessoas sem notoriedade social. Por isso, a nossa vida, colocada ao serviço de Deus com plena disponibilidade, como a vida de Nossa Senhora, adquire dimensões e frutos insuspeitáveis.

Adoremos, hoje de modo especial Nosso Senhor, que estará presente sobre o altar de aqui a poucos momentos, dando graças pela sua Encarnação, e peçamos que nos faça ver como podemos trabalhar mais no Seu serviço como a Virgem Nossa Senhora.

 

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos em Cristo

unidos pela fé, à Virgem Maria,

em cujo seio o Verbo Se fez carne para a salvação do mundo,

façamos subir ao Pai as nossas súplicas,

dizendo (ou cantando):

 

R. Pela Vossa Encarnação, ouvi-nos Senhor.

Ou: Interceda por nos a Virgem cheia de graça.

Ou: Interceda por nos a Mãe do Verbo Encarnado

 

 

1.  Para que a Igreja dispersa pelo mundo,

anuncie fielmente Jesus Cristo,

concebido no seio da Virgem Maria, por obra do Espírito Santo,

oremos, irmãos.

 

2.  Para que o papa Bento XVI, os bispos, os presbíteros e os diáconos:

amem a Deus de todo o coração

e exerçam o seu ministério imitando a Cristo,

oremos, irmãos.

 

3.  Para que em Cristo, servo obediente,

que veio ao mundo para fazer a vontade do Pai,

ofereçamos a Deus a nossa própria vida,

oremos, irmãos

 

4.  Para que aos pobres e a todos os que sofrem

seja feita justiça, não lhes falte o necessário

e se reconheça em eles o rosto de Cristo,

oremos, irmãos.

 

5.  Para que a Virgem Santa Maria, Mãe do “Emanuel”,

que nos foi dada por seu Filho como nossa Mãe,

nos acompanhe quer na vida quer na morte,

oremos, irmãos.

 

6.  Para que os cristãos de todas as igrejas,

particularmente da nossa Diocese,

imitem Cristo no seu modo de viver,

oremos, irmãos.

 

 

 

Infundi, Senhor a vossa graça em nossas almas,

para que a anunciação do Anjo,

que nos revelou a encarnação do vosso Filho,

e a intercessão da Virgem Maria

nos levem a contemplar a vossa glória

Por Cristo, nosso Senhor

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: O Anjo do Senhor, M. Simões, NRMS 31

 

Oração sobre as oblatas: Recebei, Senhor, os dons da vossa Igreja, que reconhece a sua origem na Encarnação do vosso Filho e fazei-lhe sentir a alegria de celebrar nesta solenidade os mistérios do seu Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Prefácio

 

O mistério da Encarnação

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor. Pela Anunciação do mensageiro celeste, a Virgem Imaculada acolheu com fé a vossa Palavra e pela acção admirável do Espírito Santo trouxe em seu ventre com amor inefável o Primogénito da nova humanidade, que vinha cumprir as promessas feitas a Israel e revelar-Se ao mundo como a esperança de todos os povos.

Por isso com os Anjos, que adoram a vossa majestade e exulta eternamente na vossa presença, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

Santo, Santo, Santo...

 

Santo: F. da Silva, NRMS 38

 

Monição da Comunhão

 

Nossa Senhora foi concebida sem pecado para receber o Filho de Deus. Peçamos a sua ajuda para receber a Sagrada Comunhão com as melhores disposições; e se no estivermos em condições de comungar acudamos quanto antes ao sacramento da confissão

 

Cântico da Comunhão: Eu venho, Senhor, Az. Oliveira, NRMS 62

Is 7,14

Antífona da comunhão: A Virgem conceberá e dará à luz um Filho e o seu nome será Emanuel, Deus connosco.

 

Cântico de acção de graças: O Senhor fez em mim maravilhas, Az. Oliveira, NRMS 45

 

Oração depois da comunhão: Confirmai em nós, Senhor, os mistérios da verdadeira fé, para que, tendo proclamado que Jesus Cristo, concebido da Virgem Maria, é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, cheguemos, pelo poder da sua ressurreição, às alegrias da vida eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado é o “Emanuel”, Deus connosco. Jesus esteve connosco nesta Eucaristia. Não esqueçamos que também está connosco no trabalho, no descanso, na família e em todos os acontecimentos e circunstâncias da nossa vida.

 

Cântico final: Avé Maria Senhora, F. da Silva, NRMS 81

 

 

 

TEMPO PASCAL

 

2ª SEMANA

 

3ª Feira, 9-IV: O modelo de fé dos primeiros cristãos.

Act 4, 32-37 / Jo 3, 7-15

Naqueles dias, a multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma.

O Tempo Pascal pede-nos uma renovação: «Vós tendes que nascer de novo» (Ev.)

O modelo para esta renovação pode ser o modo de vida dos primeiros cristãos: «Com um só coração e uma só alma» (Leit.). E também: «Em cada santa Missa, somos chamados a confrontar-nos com o ideal de comunhão que o livro dos Actos dos Apóstolos esboça como modelo para a Igreja de sempre. É a Igreja congregada ao redor dos Apóstolos, convocada pela Palavra de Deus, capaz de uma partilha que inclui não só os bens espirituais, mas também os materiais (Leit.).O Senhor convida-nos a aproximar-nos o mais possível deste ideal» (João Paulo II).

 

4ª Feira, 10-IV: Fé nas palavras de vida.

Act 5, 17-26 / Jo 3, 16-21

O Anjo do Senhor abriu as portas da prisão... e disse-lhes: Ide anunciar ao povo todas estas palavras de vida.

«O amor de Deus chegou ao mais precioso de todos os dons: ´Deus amou de tal maneira o mundo, que lhe entregou o seu Filho Único' (Ev.)» (CIC 219).

 O Verbo é a própria Palavra de Deus. Jesus deixou-nos um verdadeiro tesouro com os seus ensinamentos, uma fonte de conselhos e exemplos para os diferentes momentos do nosso dia. Também precisamos anunciar a todos as palavras de vida (Leit.): «Que a Bíblia continue a ser um tesouro para a Igreja e para cada cristão: no estudo cuidadoso da Palavra, encontraremos alimento e força para realizar quotidianamente a nossa missão» (João Paulo II).

 

5ª Feira, 11-IV: Fé e secularismo.

Act 5, 27-33 / Jo 3, 31- 36

Já vos demos ordem formal de não ensinar em nome de Jesus. E vós enchestes Jerusalém da nova doutrina.

Na nossa época, a cultura secularizada pretende impor-nos o mesmo silêncio. Quer construir uma ordem temporal sem Deus, que é o seu único fundamento: «Aquele que vem do Céu está acima de todos» (Ev.) E acaba por cair nos maiores ataques à dignidade humana: o aborto, a eutanásia, o acasalamento de pessoas do mesmo sexo, etc.

A nossa reacção há-de ser a mesma que a dos Apóstolos: «Deve obedecer-se antes a Deus que aos homens» (Leit.). Todas as actividades têm que ver com Deus: o mundo do trabalho, da família, da vida, da educação, etc. Nelas não podemos prescindir da nossa fé.

 

6ª Feira, 12-IV: Alimento da alma e do corpo.

Act 5, 34-42 / Jo 6, 1-15

Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos convivas. E fez o mesmo com os peixes.

«Ao libertar os homens dos males terrenos - da fome (Ev.), etc.- Jesus realizou sinais messiânicos; no entanto, Ele não veio abolir todos os males deste mundo, mas libertar os homens do pecado» (CIC, 549). É bom que o corpo esteja de boa saúde espiritual, mas é bom não esquecermos que o melhor é que a alma esteja de boa saúde espiritual. Assim se explica que os Apóstolos se alegrem de ter sido açoitados (Leit.)

Este milagre da multiplicação dos pães «prefigura a superabundância do pão único da Eucaristia» (CIC, 1335), que nos ajuda a cumprir os nossos deveres.

 

Sábado, 13-IV: Confiança no meio das dificuldades.

Act 6, 1-7 / Jo 6, 16-21

Viram Jesus andar sobre o mar e aproximar-se do barco. E tiveram medo. Mas Jesus disse-lhes: Sou eu, não temais.

Apesar de já terem visto muitos milagres realizados pelo Senhor, a fé dos Apóstolos fraqueja perante uma pequena tempestade no lago (Ev.). Quando a fé diminui, as dificuldades agigantam-se: juntam-se as tempestades da nossa alma às do ambiente.

Cristo fez a promessa de estar sempre presente na Igreja. Nada devemos temer, pois Ele já venceu o mal, e vem ajudar-nos. Essa ajuda refere-se também aos pequenos problemas: «não convém que deixemos de pregar a palavra de Deus, para fazermos o serviço das mesas» (Leit.). E assim foram escolhidos sete diáconos para este serviço.

 

 

 

Celebração e Homilia:         Carlos Santamaria

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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