TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

O BISPO, MESTRE E GUARDIÃO DA FÉ

 

 

Cardeal Joseph Ratzinger

 

 

 

L’Osservatore Romano publicou, na ed. port. de 2-VI-2012, excertos da conferência sobre “O Bispo, mestre e guardião da fé”, do então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Joseph Ratzinger, aos novos bispos nomeados entre 1 de Janeiro de 2000 e Junho de 2001.

Damos a seguir uma parte dessa reflexão, sobre a responsabilidade dos bispos nesta matéria vital para a Igreja.

 

 

A vigilância do pastor, a sua atenção pelo rebanho, que todo o Novo Testamento põe em primeiro plano, é portanto antes de tudo o cuidado pela fé: positivamente, para que ela se manifeste em toda a sua força luminosa, e negativamente, para que seja protegida contra as falsificações. E quem não vê que as falsificações ameaçam, não só no tempo apostólico, no tempo das cartas pastorais, mas também hoje?

Em teoria, todos estão de acordo sobre a missão da vigilância e do cuidado, na qual ultimamente coincidem o ministério do pastor e do mestre. Contudo, na prática existem muitos «mas». A uma iniciativa de correcção, contrapõe-se, antes de tudo, uma objecção: não se deve porventura respeitar a liberdade de ensino e a do professor? Porventura, a história da inquisição não prejudicou a fama da Igreja? Não é a liberdade um bem proeminente?

Ora, precisamente a Escola de Frankfurt ensinou-nos que existe uma dialéctica do iluminismo, na qual uma instância de liberdade cada vez mais desenfreada se torna por fim destruidora da liberdade. A história das ideologias do último século demonstra-o com evidência. A liberdade deve às vezes ser defendida precisamente para desmascarar a falsa liberdade como tal e restabelecê-la nos seus confins. Crer significa acolher uma decisão conjunta, uma fé comum e que, por conseguinte, produz paz e unidade. Ninguém deve ser obrigado a crer, acreditar deve ser sempre uma decisão livre, e neste sentido deve existir também a liberdade de se separar da fé; a responsabilidade diante de Deus não pode ser substituída por constrições externas. Contudo, quem se encontra na livre decisão da fé, acolheu também o vínculo da sua forma comum, e não pode apresentar como pretexto a liberdade, para permanecer dentro e poder destruir a partir do interior.

Estou convencido de que precisamente hoje devemos opor-nos de modo bastante decidido ao abuso do conceito de liberdade. Naturalmente, há diversas formas de vínculo. Quem assumiu livremente o compromisso de ensinar em nome da Igreja, tem um vínculo diferente do de um leigo cristão, que sob a sua única responsabilidade procura desenvolver as suas ideias. Não se pode em nome da Igreja ensinar contra a Igreja; aqui trata-se também de uma questão de honestidade.

 

A primeira objecção contra a vigilância e o cuidado vem hoje de um conceito unilateral de liberdade. Paralelamente, encontra-se uma segunda forte objecção: como pode um bispo interferir ainda na sempre crescente especialização e diferenciação da teologia? Perante a problemática cada vez mais particularizada, não é ele talvez praticamente um profano, que deve abster-se de qualquer juízo? Não seria imediatamente acusado de incompetência e de fundamentalismo? A propósito disto, gostaria de propor três indicações.

a) Obviamente, não se proferirá com superficialidade o diagnóstico de heresia ou de ofuscamento da fé. A prudência é de rigor. Segundo as indicações de Santo Inácio de Loyola, pressupor-se-á antes a boa vontade e procurar-se-á interpretar a nova proposta em sentido positivo. Para um bispo é muito importante o contacto pessoal com os professores de teologia. Muitos aspectos podem ser esclarecidos na relação pessoal; a proximidade ao bispo ajuda a reforçar a sensibilidade pastoral e a corresponsabilidade pela comunhão da fé, e vice-versa, abre ao bispo o acesso aos problemas teológicos actuais.

b) A ajuda recíproca dos bispos entre si e o conselho de peritos confiáveis é importante. Por isso, as Conferências episcopais devem preocupar-se por constituir uma Comissão deveras competente para os problemas da fé, na qual colaborem bispos de competência comprovada com professores que sigam os debates teológicos essenciais e apoiem cada bispo nas questões difíceis.

c) Ainda mais importante do que estes dois aspectos é o terceiro: hoje, com frequência, esquece-se a diferença entre teologia e fé. Na teologia, não podemos ser todos especialistas, e mesmo o teólogo por sua vez não é especialista em toda a construção muito articulada da teologia contemporânea. Mas os bispos nem sequer devem querer exercer eles próprios o trabalho dos teólogos; a sua função é outra: eles são mestres da fé, sobre a qual se fundamenta a teologia. Na teologia, relativamente só poucos podem ser especialistas. Nas questões da fé somos todos instruídos por Deus, como diz o Evangelho de João (6, 45). (...) Cada cristão tem o direito e a capacidade de intervir contra a falsa doutrina e a favor da fé comum, de modo particular naturalmente o bispo, que representa o direito dos fiéis e é a sua voz. Se é importante a defesa da liberdade do professor, deve-se sempre ter presente contudo que o bem ainda mais proeminente é a defesa da fé dos fiéis, que têm direito à fé genuína da Igreja. A sua fé é o bem da Igreja que mais altamente merece ser defendido. (…)

 

A confissão de fé da Igreja é o terreno firme, sobre o qual se encontra a teologia. Se esta o abandona, dissolve-se como teologia e torna-se uma privada filosofia da religião. Para esta confissão deve ser orientada a teologia, e nela todos «temos a ciência». Esta simplicidade da confissão não se pode perder de vista, caso contrário o cristianismo torna-se gnose, uma coisa de eruditos, na qual em última análise só existem hipóteses, e já não um fundamento, sobre o qual possamos viver e morrer. Para os Padres era perfeitamente claro que a Regula fidei é o último critério da exegese, dentro do qual existe um espaço muito vasto para a investigação e as descobertas do intérprete, mas, ao mesmo tempo, a realidade a ser interpretada é salvaguardada e não se dissolve na interpretação.

De resto para os Padres, a Regula fidei não era algo escrito, era mais ampla do que a profissão de fé, isto é, algo vivo: nela está incluída a voz viva da Igreja, ou seja, o Magistério. Assim, o Magistério é a verdadeira ajuda na delimitação entre interpretação falsa e verdadeira. O próprio bispo, na sua Igreja local, é a voz viva da fé, o seu mestre e guardião. Mas porque a Igreja é única, ele só ensina de modo recto se ensinar sincrónica e diacronicamente em união com toda a Igreja, se estiver em sintonia com a voz do sucessor de Pedro. Em muitas regiões tornou-se habitual desconfiar sistematicamente da voz do Magistério, considerá-lo um impedimento contra a liberdade da investigação e do pensamento. Devemos de novo habituarmo-nos a considerá-lo como uma ajuda que nos é dada para identificar a voz da fé enquanto tal. Precisamente assim, defendemos um igual direito de todos os fiéis contra um pensamento de classe, no qual só alguns privilegiados teriam a chave do conhecimento.

 

Chego agora a uma terceira objecção, que se opõe à missão da vigilância e do cuidado: se entrarmos em questões de fé, não perturbamos de modo perigoso a paz na Igreja? Os meios de comunicação de massa apoderam-se da questão e confundem os fiéis; nascem polarizações – não é talvez maior o dano derivado da confusão pública e da contraposição que se origina, do que se deixássemos a questão de lado? Quando nós da Congregação para a Doutrina da Fé pedimos aos bispos que tomem posição contra uma obra abertamente enganadora, é-nos com frequência repetido: só poucas pessoas conhecem o livro, já está esgotado. Ninguém se importa com ele – por que deveríamos fazer-lhe publicidade e rompermos nós o silêncio até agora praticamente imperturbado?

Tais argumentos podem ser plenamente justificados. Santo Agostinho, na luta com os donatistas, cunhou a expressão tolerare pro pace. A paz é um bem importante, e deve-se avaliar no nosso caso se o texto em questão, o grupo em questão é tão importante, que se deva assumir a responsabilidade pela confusão que dele nascerá, ou se é melhor, em tal caso, deixar que a questão acabe no silêncio. Por mais que isto seja verdadeiro, todavia não podemos tranquilizar-nos demasiado facilmente. A paz, a paz interior na comunidade eclesial é – como já foi dito – um bem importante, mas existem também pazes falsas.

Se deixarmos sempre passar as coisas, nasce o sentimento da arbitrariedade. Não queremos ter problemas; tudo deve permanecer tranquilo, mas esta calma já não tem conteúdo algum, e torna-se inconsistente e vazia. De cada falsificação da fé que não for corrigida, permanece também um elemento de envenenamento interior no organismo da Igreja. Aparentemente, a princípio, ela não causa dano, enquanto não se tornar uma infecção geral. Continua a propagar-se silenciosamente, enquanto se perde a sensibilidade pela fé e a própria fé já não se manifesta como um bem comum, porque foi corroída lentamente a partir de dentro. Então certamente a estrutura externa continua ainda por algum tempo, mas no seu interior a Igreja está condenada a desaparecer.

 

 


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