TEMAS LITÚRGICOS

O DEBATE SOBRE A LITURGIA NO CONCÍLIO

 

 

Bento XVI

 

 

No encontro anual com o clero de Roma (14-II-2013), Bento XVI falou coloquialmente de como viu o Concílio Vaticano II. Ver Secção “Vaticano II”.

Oferecemos a seguir as suas palavras a respeito da Sagrada Liturgia, que seria o objecto da Constituição Sacrossanctum Concilum.

Título da Redacção da CL.

 

 

Depois da Primeira Guerra Mundial, crescera, precisamente na Europa central e ocidental, o movimento litúrgico, uma redescoberta da riqueza e profundidade da liturgia, que até então estava quase encerrada no Missal Romano do sacerdote, enquanto o povo rezava pelos seus livros de oração, feitos de acordo com o coração da gente, de modo que se procurava traduzir os altos conteúdos, a elevada linguagem da liturgia clássica em palavras mais sentimentais, mais próximas do coração do povo. Porém, eram quase duas liturgias paralelas: o sacerdote com os acólitos, que celebrava a Missa segundo o Missal, e os leigos que rezavam, durante a Missa, com os seus livros de oração, sabendo substancialmente o que se realizava no altar.

Mas agora fora redescoberta precisamente a beleza, a profundidade, a riqueza histórica, humana, espiritual do Missal e a necessidade de que não só um representante do povo, um pequeno acólito, dissesse «Et cum spiritu tuo», etc., mas que fosse realmente um diálogo entre o sacerdote e o povo, que realmente a liturgia do altar e a liturgia do povo fossem uma única liturgia, uma participação activa, que as riquezas chegassem ao povo; e assim foi redescoberta, renovada a liturgia.

Agora, olhando retrospectivamente, acho que foi muito bom começar pela liturgia, assim aparece o primado de Deus, o primado da adoração. «Operi Dei nihil praeponatur» [nada se anteponha à obra de Deus]: esta expressão da Regra de São Bento (cf. 43, 3) aparece assim como a regra suprema do Concílio. Alguém criticara que o Concílio falou de muitas coisas, mas não de Deus. Mas ele falou de Deus! E foi o primeiro e substancial acto falar de Deus e abrir todas as pessoas, todo o povo santo, à adoração de Deus, na celebração comum da liturgia do Corpo e Sangue de Cristo. Neste sentido, para além dos factores práticos que desaconselhavam começar imediatamente com temas controversos, foi realmente – podemos dizer – um acto da Providência que, nos inícios do Concílio, esteja a liturgia, esteja Deus, esteja a adoração. Agora não quero entrar nos pormenores da discussão, mas vale a pena voltar sempre, mais além das aplicações práticas, ao próprio Concílio, à sua profundidade e às suas ideias essenciais.

Eu diria que havia várias: sobretudo o Mistério Pascal como centro do ser cristão e, consequentemente, da vida cristã, do ano, do tempo cristão, expresso no tempo pascal e no domingo que é sempre o dia da Ressurreição. Sempre começamos de novo o nosso tempo com a Ressurreição, com o encontro com o Ressuscitado, e, do encontro com o Ressuscitado, saímos para o mundo. Neste sentido, é uma pena que hoje o domingo se tenha transformado em fim-de-semana, quando na verdade é o primeiro dia, é o início. Interiormente, devemos ter isto presente: é o início, o início da Criação, é o início da recriação na Igreja, encontro com o Criador e com Cristo Ressuscitado. Também este duplo conteúdo do domingo é importante: é o primeiro dia, isto é, a festa da criação, o nosso fundamento continua a ser a Criação, acreditamos em Deus Criador; e encontro com o Ressuscitado, que renova a Criação; o seu verdadeiro objectivo é criar um mundo que seja resposta ao amor de Deus.

Depois havia princípios: a inteligibilidade, em vez de ficar fechados numa língua desconhecida, não falada, e também a participação activa. Infelizmente, estes princípios foram também mal entendidos. Inteligibilidade não quer dizer banalidade, porque os grandes textos da liturgia – ainda que proferidos, graças a Deus, na língua materna – não são facilmente inteligíveis, necessitam de uma formação permanente do cristão para que ele cresça e entre cada vez mais em profundidade no mistério, e assim possa compreender. E também a Palavra de Deus: se penso cada dia na leitura do Antigo Testamento, mesmo na leitura das Epístolas Paulinas, dos Evangelhos, quem pode afirmar que compreende imediatamente tudo, só porque se faz na sua própria língua? Só uma formação permanente do coração e da mente pode realmente criar inteligibilidade e uma participação que é mais do que uma actividade exterior, que é um entrar da pessoa, do meu ser, na comunhão da Igreja e, deste modo, na comunhão com Cristo.

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial